Gestor Reprovado X Fiscais eleitos.

Desde 2012, as eleições municipais em Itaperuna-RJ, têm revelado um fenômeno curioso e, ao mesmo tempo, contraditório: a chamada “máquina pública” tem conseguido reeleger ou eleger boa parte dos membros do parlamento municipal, enquanto o gestor, aquele que administra essa mesma máquina, não obtém o mesmo sucesso nas urnas. Essa aparente incoerência levanta uma pergunta inevitável: como é possível que os fiscais do governo sejam premiados com votos, enquanto o gestor, que eles deveriam fiscalizar, é rejeitado pela população?

A resposta não é simples, mas aponta para um conjunto de fatores que envolvem percepção política, estrutura de poder e a natureza do voto local. Os vereadores, ao contrário do gestor, mantêm uma relação mais direta e personalizada com o eleitor. Estão presentes no dia a dia das comunidades, participam de eventos, intermedeiam demandas e oferecem respostas imediatas, ainda que pontuais. Essa proximidade cria um vínculo de confiança que muitas vezes se sobrepõe à avaliação racional do desempenho coletivo da gestão.

Já o gestor municipal, o prefeito, carrega sobre si o peso da responsabilidade global: saúde, educação, infraestrutura, finanças, etc. Quando algo falha, é ele quem concentra a culpa. A máquina que o cerca, muitas vezes ineficiente ou fragmentada por interesses políticos, acaba sendo usada mais como ferramenta de influência parlamentar do que de fortalecimento da própria gestão. Assim, o prefeito se torna o rosto visível dos problemas, enquanto os vereadores, mesmo participando do mesmo sistema, conseguem se apresentar como “defensores do povo” diante das falhas do Executivo.

Há, portanto, um antagonismo estrutural e político: o Legislativo se beneficia da fraqueza do Executivo, e o eleitor, sem perceber a interdependência entre ambos, vota de forma fragmentada, premiando quem “ajuda” e punindo quem “manda”. Essa lógica mantém o círculo vicioso de gestões frágeis e parlamentos confortáveis, onde a crítica ao gestor serve de combustível eleitoral para os próprios fiscais.

Em suma, o paradoxo das urnas municipais revela não apenas uma contradição do voto popular, mas também uma distorção na compreensão do papel de cada poder. Enquanto a máquina continuar sendo usada mais como instrumento de barganha do que de governança, os parlamentares seguirão se reelegendo, votando de acordo com suas consciências em recomendações contrárias pelo TCE, e os gestores, sendo rejeitados, e tornando-se inelegíveis ou não.

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