No tabuleiro imprevisível da política fluminense, onde certezas se dissipam com a mesma rapidez das nuvens de verão, mais um movimento estratégico reposiciona as peças e redefine expectativas. O cenário, já turbulento pela vacância do cargo de governador, ganhou novos contornos com a legítima provocação judicial que questiona o rito das eleições indiretas, levando o tema ao Supremo Tribunal Federal, com julgamento marcado para 08 de abril de 2026.
A princípio, o gesto da oposição ao acionar o STF e apostar na tese de eleições diretas parecia um lance ousado, capaz de alterar profundamente o rumo do processo sucessório. E de fato é. Há, no horizonte, a possibilidade concreta de que o estado do Rio de Janeiro vivencie não apenas uma, mas duas eleições diretas para o governo em um curto intervalo de tempo, o que por si só já representa um fato político de enorme relevância.
Entretanto, como ensina a própria dinâmica do poder, não existem espaços vazios, apenas espaços a serem ocupados. E é justamente nesse ponto que ressurge a figura do experiente articulador político, que, longe de assistir passivamente aos acontecimentos, reposiciona-se com precisão cirúrgica. Sua renúncia ao cargo de secretário de governo e o retorno à Assembleia Legislativa não são gestos triviais, tampouco impulsivos. São, ao contrário, movimentos calculados dentro de uma lógica que privilegia o controle institucional em detrimento da exposição eleitoral imediata.
A pergunta que ecoa entre analistas e eleitores é inevitável: teria ele abandonado a jogada anteriormente desenhada, aquela que lhe permitiria trocar uma reeleição por duas disputas uma do filho e a outra a dele próprio ao TCE. A resposta, ao que tudo indica, é negativa. O que se observa não é recuo, mas adaptação. Uma inflexão estratégica diante de um novo contexto.
Com a anulação da eleição para a presidência da Alerj, abre-se uma janela de oportunidade rara. Mais do que um cargo, a presidência da Casa Legislativa representa, neste momento, o epicentro das decisões que irão conduzir o processo eleitoral extraordinário. Quem a ocupar não apenas comandará os ritos das eleições indiretas (caso estas se confirmem), mas também exercerá protagonismo na organização das eleições suplementares e, posteriormente, do pleito regular de outubro.
É nesse redesenho de forças que reside a chamada “invertida”. Enquanto adversários ensaiam movimentos de ataque alguns até com pretensões de xeque-mate, o articulador atua no campo estrutural, onde se definem as regras do jogo. Ao priorizar a presidência da Alerj, ele se coloca em posição de influência contínua, capaz de atravessar cenários distintos: com eleições diretas ou indiretas, com um ou dois pleitos, com diferentes protagonistas na disputa pelo Executivo.
Há, ainda, um elemento adicional que não pode ser ignorado: a manutenção da hegemonia legislativa. A maioria dos parlamentares demonstra inclinação clara por preservar o atual equilíbrio de forças na Casa. Nesse contexto, a figura de um líder experiente, com capacidade de diálogo e articulação, tende a ser não apenas viável, mas desejável.
Assim, o que à primeira vista poderia parecer uma mudança de rota revela-se, na verdade, uma jogada de reposicionamento menos visível ao grande público, porém potencialmente mais decisiva. Em política, nem sempre vence quem ocupa o centro do palco; muitas vezes, o verdadeiro poder está nas mãos de quem controla os bastidores.
Se houve a tentativa de um xeque-mate, a resposta vem no formato de uma sofisticada invertida. E, como em todo bom jogo de estratégia, o desfecho ainda está em aberto mas algumas peças, sem dúvida, já estão em posições privilegiadas.

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